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A transição ecológica impõe a mobilização de todos os atores: Estados, empresas, cidadãos... e cidades. Nos quatro cantos do globo, algumas não esperaram o último relatório alarmante do GIEC para agir. Foco em 5 cidades exemplares.

Alta do nível dos mares, onda de calor, inundações repetidas, ameaça sobre o abatecimento em água e em comida... As mudanças do clima estão deixando à mostra a fragilidade das cidades frente a eventos climáticos extremos para os quais elas não estão preparadas.

Ao mesmo tempo, frente à insuficiência da ação dos Estados, as cidades, fontes de 75% das emissões mundiais de gases de efeito estufa, começam a revelar a sua formidável capacidade para preservar o clima. “São elas que melhor conhecem os desafios do seu território e as expectativas dos cidadãos”, ressalta Alix Françoise, responsável de equipe de projeto na Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD). “Elas podem desempenhar um papel importante na mitigação das emissões de gases de efeito estufa, ao introduzir novas políticas de mobilidade, de gestão dos resíduos e de acesso à água.

Biodiversidade, calefação urbana, iluminação pública, transportes, mobilização dos atores no plano mundial: seguem 5 cidades pioneiras no combate às mudanças do clima..

 

1. EM CURITIBA (BRASIL), PARQUES NATURAIS PROTEGIDOS NO MEIO DA CIDADE

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© Zuleika de Souza / AFD

 

Considerada por muito tempo como uma cidade modelo na América Latina, a capital do estado brasileiro do Paraná, imaginada na década de 40 pelo arquiteto francês Alfred Agache, teve que enfrentar novos desafios nos últimos anos.

Um deles era preservar a biodiversidade – e, ao mesmo tempo, a imagem dessa “cidade verde” do Brasil – enquanto a metrópole continuava crescendo, inexoravelmente, para o sul, ameaçando o estado do rio Barigüi e a fauna local.

Com o apoio da AFD, Curitiba vai reordenar as margens do rio e criar quatro parques, como também, no fim do projeto, conectar todos os parques em um único corredor ecológico que vai atravessar a cidade. Essas áreas permitirão preservar a flora local, aumentar a área dedicada à biodiversidade na cidade, e trazer uma resposta à erosão dos solos e aos riscos de inundação decorrentes. O projeto irá demonstrar, mais uma vez, que o desenvolvimento urbano não é incompatível com a proteção da biodiversidade.


Ler também: Brasil, os desafios de Curitiba


 

2. EM JINZHONG (CHINA), UMA REDE DE CALEFAÇÃO, MODELO DE EFICÁCIA ENERGÉTICA

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© Jens Schott Knudsen / Flickr

 

Por si só, a calefação dos edifícios ilustra a imensa margem de progresso que possui a China para reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa: o carvão continua sendo a principal fonte de energia, enquanto que a obsolescência das redes de calefação causa perdas energéticas colossais.

A cidade de Jinzhong resolveu encarar o problema de frente. Desde 2010, cerca de 700 pequenas caldeiras foram substituídas por uma rede de calefação muito mais eficiente. Com 98 quilômetros de extensão, ela é alimentada por uma nova central térmica movida a carvão, segundo o princípio de cogeração (energia + calor) de 2 x 300 megawatts.

Os benefícios foram imediatos para o clima e os habitantes de Jinzhong. A substituição das caldeiras de antiga geração permitiu evitar a emissão de 400.000 toneladas de gases de efeito estufa (em equivalente CO2), 4.000 toneladas de fuligem e 1.300 toneladas de dióxido de enxofre (SO2, um gás poluente visado pela Organização Mundial da Saúde) por ano. Esse projeto é referência na China para incentivar a evolução da calefação urbana e evitar, ao mesmo tempo, o aquecimento do planeta.


 

3. EM JODHPUR (ÍNDIA), AS LED ILUMINAM AS ECONOMIAS DE ENERGIA

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© Yashas Chandra / AFD

 

Em decorrência da velocidade do seu crescimento econômico e da sua urbanização, a Índia registra um forte aumento do seu consumo energético. Ao ponto de ser hoje o 3º consumidor mundial de energia, atrás da China e dos Estados Unidos. O problema: as suas necessidades poderiam dobrar até 2035, e o seu mix energético ainda depende muito do carvão.

Para sanar a situação, o governo adotou, em 2010, objetivos de desenvolvimento das energias limpas e de eficiência energética nos setores da indústria, agricultura, infraestruturas e edifícios públicos.

Uma cidade é o emblema dessa transição: Jodhpur e seus 1,1 milhões de habitantes, no estado indiano do Rajastão. A famosa “cidade azul” está se tornando cada vez mais verde desde que começou a substituir, em 2015, as lâmpadas tradicionais dos seus equipamentos de iluminação urbana por 45.000 lâmpadas LED, mais luminosas e menos energívoras. Os benefícios ambientais já apareceram: o consumo da iluminação pública em Jodhpur foi reduzida em 55% e as emissões de gases de efeito estufa associadas tiveram queda de 16.000 toneladas por ano.

Essa mudança também traz benefícios para os habitantes: com a melhoria da iluminação, a segurança do trânsito e a segurança das mulheres no espaço público é bem maior. "Antes, a iluminação parava sempre. Hoje, podemos sentar na rua todas as noites e bater papo tomando chá”, declara uma moradora.

 

4. EM SANTO DOMINGO (REPÚBLICA DOMINICANA), UM ÔNIBUS FLUVIAL CONECTADO AO METRÔ

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© Franck Galbrun / AFD

 


Atrás do cartão postal, a capital da República Dominicana carece de equipamentos e de infraestruturas de transporte. O seu rápido crescimento demográfico (a cidade totaliza hoje 3 milhões de habitantes e a sua expansão horizontal levaram à emergência de bairros pobres pouco atendidos pelo transporte coletivo.
Decidida a agir, Santo Domingo se lançou, há alguns anos, em um ambicioso programa de reordenamento dos transportes na sua região Leste, apoiado por um empréstimo de 210 milhões de dólares (182 M€) da AFD. 

Com esses recursos, o município implementou o “Acuabus”, uma barca fluvial conectada ao metrô que atende vários bairros isolados, assim como uma linha piloto de teleférico que liga os bairros periféricos do norte ao centro da cidade, antes separados pelo rio Ozama. Ao mesmo tempo, a cidade estendeu a linha 2 do metrô com 4 km adicionais.

Essa política já traz benefícios. Alem do acesso aos bairros precários e da consolidação do renome turístico de Santo Domingo, as emissões de gases de efeito estufa diminuíram desde a chegada desses novos modos de transporte menos poluidores.

 

5. EM BUENOS AIRES (ARGENTINA), UMA MOBILIZAÇÃO DAS CIDADES A FAVOR DO CLIMA

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© David Stanley / Flickr

 

Capital de um pais de 44 milhões de habitantes, Buenos Aires não escapa do questionamento sobre o papel das grandes cidades na crise ecológica mundial. Há muitos anos a cidade já iniciou uma dinâmica positiva. Prova disso é o seu compromisso de se tornar neutra em carbono até 2050, o seu apoio aos projetos de instalação de painéis solares nos tetos dos edifícios públicos, a extensão da sua rede de metrô e a construção de 210 km de ciclovias.

Buenos Aires quer ir mais longe e agir na escala internacional.Em dezembro de 2017, no One Planet Summit de Paris, ela lançou uma nova iniciativa: o Urban 20, ou U20, uma cúpula que reunirá as principais cidades dos países do G20, com vistas a valorizar os principais desafios das cidades – em especial o das mudanças do clima – para mandar uma mensagem forte à próxima cúpula dos chefes de Estado das 20 potências mundiais.

O primeiro Urban20 deve ocorrer em 29 e 30 de outubro em Buenos Aires. 24 grandes cidades já confirmaram presença. Prova que muitas outras estão apenas esperando para agir em benefício do clima.

 


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