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O Grupo de Peritos Intergovernamental sobre a Evolução do Clima (GIEC) revelou na quarta-feira, 25 de setembro, um relatório especial alarmante sobre os oceanos e áreas congeladas do planeta. Qual é o seu conteúdo? Que soluções podem ser aplicadas para atenuar estes impactos? Dois especialistas em mudança climática da AFD respondem.
  • Aumento do nível do mar

Constatação: Sob a ameaça do aquecimento global, o processo de degelo acelerou-se nos últimos anos e, com ele, a elevação das águas. Os cientistas do GIEC indicam, em seu último relatório, que o nível dos mares e oceanos aumentou, em média, 3,6 milímetros por ano entre 2005 e 2015, com variações de mais ou menos 30%, em função das regiões. Um aumento que é 2,5 vezes mais rápido que o do século XX.

Este relatório também alerta sobre as grandes incertezas relativas ao comportamento futuro das calotas glaciais da Groenlândia e da Antártida, e não exclui uma aceleração brutal de seu degelo. “Dependendo do cenário, fala-se hoje de +1 metro no fim do século, mas em caso de desestabilização da Antártida, o nível marinho poderia subir até 2 metros, de acordo com certos cientistas”, explica Marie-Noëlle Woillez, especialista em questões climáticas da Agence Française de Développement (AFD), com as consequências que podemos imaginar: inundação das zonas costeiras, infiltração de água salgada nos lençóis freáticos próximos do litoral, deslocamentos populacionais…

Soluções: Além reduzir as emissões de gases de efeito estufa, não existem soluções universais: tudo depende do contexto local. “Podemos apoiar projetos de adaptação, tais como a conservação de ecossistemas ou a proteção contra a erosão do litoral”, diz Timothée Ourbak, especialista em mudança climática da AFD.

Em 2018, a AFD consagrou 1,6 bilhão de euros em favor da adaptação dos países vulneráveis às consequências da mudança climática.
 

  • Acidificação, aquecimento e perda de oxigênio nos oceanos

Constatação: Em interação com a atmosfera, os oceanos absorvem uma proporção importante do dióxido de carbono nela presente e do excesso de calor gerado pelo efeito estufa. Isto resulta em quatro consequências principais sobre seu equilíbrio: as águas superficiais estão se tornando cada vez mais quentes, ácidas e pobres em oxigênio e nutrientes.

Daqui até o fim do século, os oceanos e mares de altas latitudes poderiam se tornar corrosivos para certas espécies, ameaçando um grande número de organismos marinhos e obrigando-os a migrar, caso possam. E oceanos mais quentes, mais pobres em oxigênio e nutrientes, implicam necessariamente uma queda da população de peixes”, alerta Timothée Ourbak. “À escala dos tempos geológicos, podemos pensar que os ecossistemas poderiam se adaptar a perturbações dessa ordem.  Mas à escala humana, isto gerará enormes problemas”.

Soluções: Estes impactos se produzem num contexto onde as espécies marinhas já estão estressadas pelas atividades humanas, tais como a pesca intensiva e a poluição plástica. “O relatório preconiza diminuir estas pressões, estabelecendo, ao mesmo tempo, reservas naturais onde a fauna marinha poderá encontrar refúgio”, propõe Marie-Noëlle Woillez.

Na Mauritânia, a AFD e o Fundo Francês para o Ambiente Mundial (FFEM) investiram 2,5 milhões de euros num projeto de conservação e extensão de áreas marinhas e costeiras protegidas, contribuindo assim para a renovação das populações de peixes.
 

  • Degelo do permafrost

Constatação: Grandes extensões de terras congeladas nas regiões árticas que, em teoria, nunca derretem. Trata-se do permafrost – também chamado pergelissolo. Ora, com o aquecimento climático, estes solos degelam, liberando os gases de efeito estufa que armazenavam até então.

No cenário mais pessimista previsto pelo GIEC, 99% do permafrost próximo da superfície poderia derreter daqui até 2100. Ora, a incerteza é hoje muito grande quanto às quantidades de carbono que poderiam ser potencialmente descarregadas. Estamos falando de dezenas ou centenas de bilhões de toneladas.  Isso, sem contar o permafrost profundo, mais difícil de analisar”, previne Marie-Noëlle Woillez.

Soluções: Mais uma vez, reduzir as emissões de gases de efeito estufa para eliminar o aquecimento planetário que, com o degelo do permafrost, poderia aumentar fortemente. Neste plano, a AFD está plenamente mobilizada: engajamento numa atividade 100% compatível com o Acordo de Paris sobre o clima, objetivo de 5 bilhões de euros de financiamento por ano, para o clima, a partir de 2020, e apoio de muitos países na revisão de seus compromissos climáticos e na definição de estratégias resilientes de baixo carbono a longo prazo.
 

  • Intensificação dos eventos climáticos extremos

Constatação: O relatório indica que é provável que os ciclones ganhem em intensidade, assim como os impactos dos fenômenos oceânicos: El Niño, secas, refluxo de águas quentes para certas zonas de pesca, inundações e tempestades tropicais.

O que antes era excepcional não mais o será. Grandes inundações associadas a tempestades costeiras violentas, que se produzem atualmente uma vez por década, poderiam se tornar anuais, no horizonte de 2060”, adverte Timothée Ourbak.

Soluções: Apoiar a criação de normas que incitem a construir infraestruturas resilientes aos ciclones; facilitar o seguro dos bens nas zonas de risco; reforçar os sistemas de observação de fenômenos climáticos extremos e os meios de alerta… Estes são alguns entre os muitos projetos em que a AFD está hoje empenhada. “Estes projetos representam pouco investimento, mas evitam enormes prejuízos”, explica Marie-Noëlle Woillez. Trocando em miúdos, prevenir para se proteger melhor e reconstruir após a tempestade.  

Mas, acima de tudo, fazer o máximo para evitar a tempestade.
 

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