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Madagascar
Em um contexto de insegurança alimentar crescente, o Salão Internacional da Agricultura (SIA) de 2024 vai debater uma questão crucial: a fertilidade do solo. O Grupo AFD está comprometido com a implementação da transição ecológica e agrícola no mundo inteiro, agindo para preservar e restaurar a terra, sobretudo através da agroecologia. Apresentamos aqui um panorama da situação atual.

Diante do crescimento demográfico, das práticas agrícolas e da exploração excessiva do solo, metade das terras aráveis do mundo está em más condições ou totalmente esgotada. Em um cenário de tensões internacionais desde a crise de Covid-19, prolongado pela guerra na Ucrânia, a insegurança alimentar só aumenta. No continente africano, uma em cada cinco pessoas está passando fome, de acordo com o relatório SOFI 2023. Portanto, a preservação e o aprimoramento da fertilidade do solo são fundamentais para garantir a produção agrícola sustentável. Com o intuito de encontrar soluções para essa necessidade urgente e compartilhar sua experiência nessas questões, o Grupo AFD está participando do Salão Internacional da Agricultura (SIA) de 2024. Mas, concretamente, como esse know-how é implementado em todo o mundo?

Fertilidade do solo: um problema global

Com o aumento da população mundial, a fertilidade do solo está entrando em colapso: em outras palavras, todos os anos, a capacidade dos solos de produzir alimentos suficientes de forma saudável se deteriora. Para enfrentar esse desafio com implicações tão extensas quanto as regiões do mundo em questão, a AFD utiliza seu conhecimento das realidades locais e sua presença mundial para implantar uma série de soluções sob medida.  

TerrAmaz: restaurando a biomassa da Amazônia


Com mais de 30 milhões de hectares de terras degradadas, o estado dos solos amazônicos está afetando a segurança alimentar e a renda de seus habitantes. No entanto, os ecossistemas amazônicos podem capitalizar seus ativos naturais e renováveis, graças à produção e à reciclagem de biomassa (matéria orgânica retirada da manutenção de lotes de terra), sem desmatamento. As práticas agrícolas de restauração usam plantas escolhidas por sua capacidade de cobrir o solo, acumular húmus e massas de raízes, o que estimula todos os micro-organismos do solo. Juntamente com plantações para fins alimentares ou comerciais, as plantas leguminosas também são escolhidas como adubos verdes, ou gramíneas como produtoras de biomassa e fixadoras de carbono. O mesmo se aplica a determinadas espécies de árvores escolhidas por seu desempenho hídrico. O projeto TerrAmaz, financiado pela AFD e implementado pelo CIRAD, ONF International e AVSF, junta a pesquisa científica e o compromisso local para apoiar os protagonistas da Amazônia na extensão da restauração do solo a todas as regiões da floresta. É dada ênfase especial às populações mais vulneráveis, aos povos originários e pequenos agricultores, além das culturas mais populares da área (mandioca, frutas, carne bovina e leite).

Ganare: a pecuária como ferramenta para recuperar o solo do méxico

élevage
Nos estados de Chiapas, Jalisto, Veracruz e Chihuahua, práticas de pecuária mais sustentáveis estão permitindo regenerar as terras degradadas © Marc Le Chélard / AFD


Com 10% da biodiversidade mundial em seu território, o México possui tantas riquezas que chegou a receber o selo de país megadiverso. Desmatamento, mudanças da utilização do solo, exploração excessiva de recursos, poluição da água e do ar, introdução de espécies invasivas… A pecuária já ocupa mais de 50% dos solos e causa a degradação desse patrimônio valioso. Por essa razão, a AFD decidiu apoiar a concepção de um projeto de pecuária regenerativa chamado Ganare. A operação permitiu realizar uma série de estudos preparatórios nos estados de Chiapas, Chihuahua, Jalisco e Veracruz, iniciando uma dinâmica poderosa de transição de sistemas de pecuária para modelos econômicos sustentáveis e facilitando o acesso a mecanismos de financiamento disponibilizados pelos bancos.

“Todos saem ganhando: o gado, o solo, as práticas agroecológicas. Trata-se de um verdadeiro ciclo virtuoso”, afirma Karla Barclay,  coordenadora de biodiversidade, desenvolvimento rural e oceanos da direção regional do México, Costa Rica e América central da AFD. O tema tratado pelo projeto Ganare resultou em uma mudança de paradigma: reivindicar os benefícios da pecuária no aprimoramento das condições do solo, através da modificação das práticas. Ela indica que “a pecuária faz parte de nosso panorama atual. Combatê-la significa danificar a biodiversidade que faz parte desse sistema de produção. É melhor encarar essa prática como uma aliada na luta contra a degradação do meio ambiente”, como demonstra o exemplo do projeto Ganare. A AFD está negociando atualmente com o FIRA, o maior banco público mexicano no setor agrícola, para criar uma nova linha de crédito. Um de seus componentes será justamente a mudança das práticas de pecuária.
 

Investir na fertilização do solo no Burundi para erradicar a desnutrição


"Nós plantávamos, mas as colheitas não eram muito boas. E, muitas vezes, a erosão acabava com todas as plantações. Era difícil para mim alimentar meus filhos e proporcionar a eles uma dieta balanceada", diz Marie Goreth Ndayisaba, mãe e agricultora no Burundi, e participante do projeto TAPSA, implementado pela INADES Formation Burundi em parceria com o CCFD Terre Solidaire. O objetivo do programa é contribuir para a soberania alimentar, apoiando agricultores e atores da sociedade civil comprometidos com a transição agroecológica. Combate à erosão, uso de cinzas para enriquecer o solo e produção de adubo orgânico: os intercâmbios e treinamentos entre agricultores ajudam a superar as dificuldades e a falta de recursos locais. "Antes, eu produzia de 70 a 80 kg de feijão. Agora, na mesma terra, minha colheita quase triplicou", afirma Marie Goreth Ndayisaba. Além do Burundi, esse projeto está sendo implementado em outros países, incluindo Senegal, Mauritânia, Ruanda, República Democrática do Congo, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, Egito, Líbano e Timor, onde também obteve excelentes resultados. 

Apoio aos pequenos produtores de Madagascar através da agroecologia 

Madagascar
© Falihery-Francisco / AFD


Os habitantes de Madagascar, principalmente os que vivem nas áreas rurais do sul do país, sofrem com frequentes episódios de seca severa, causando fome, conhecida localmente como "Kere". Além disso, "o número crescente de agricultores trabalhando constantemente nas superfícies que ocupam leva a uma redução de áreas disponíveis por pessoa, a uma queda dos períodos de alqueive e, por fim, a uma degradação geral do solo", explica Paulin Hyac Rakotoarisoa, coordenador técnico da AVSF (Agrônomos e veterinários sem fronteiras) em Madagascar. Com o apoio da AFD, a AVSF está concedendo apoio os pequenos agricultores de Madagascar, fortalecendo suas organizações e ajudando-os a melhorar a produção através da agricultura sustentável.

De acordo com o Sr. Rakotoarisoa, "em Madagascar, várias práticas agroecológicas provaram sua eficácia em termos de gestão sustentável da terra: fertilização orgânica, aproveitamento máximo da biomassa (associações de gramíneas e leguminosas, sebes vivas, etc.), agrofloresta, manutenção da terra sem a utilização de queimadas, etc.".

Os beneficiários diretos do projeto AVSF incluem 2.500 camponesas e camponeses membros de organizações de todos os tipos.

Haiti: o ensino de técnicas sustentáveis para pequenos agricultores

Haïti
© Agrisud International / Johnson Sabin


No Haiti, as áreas de cultivo estão sujeitas à intensa erosão do solo devido às fortes chuvas tropicais, ao relevo acentuado e à falta de cobertura vegetal. Sua deterioração ameaça a produção, especialmente porque a maioria das famílias de agricultores não tem outra solução devido à pressão sobre a terra e ao pequeno tamanho de suas fazendas.  

Jude Noradin cultiva suas terras no município de Limbé. Assim como agricultores de mais de 400 outras fazendas da região, ele participou de cursos organizados peo projeto PAD Nord, implementado pela Agrisud International. "Agrofloresta, agricultura de contorno, faixas de proteção viva... essas práticas me dão esperança e eu incentivo meus vizinhos a adotá-las também". Agora, organizados em um kombit - um grupo tradicional de apoio coletivo - ele e seus vizinhos estabeleceram a meta de aprimorar os 35 hectares de terras agrícolas em sua aldeia.

De acordo com Joseph Fontescony, diretor do Departamento Norte do Ministério do Meio Ambiente, "essas práticas têm um impacto positivo, limitando a erosão, melhorando a qualidade do solo, protegendo a biodiversidade e otimizando o uso da água, entre outros. Tudo isso contribui para a adaptação às mudanças climáticas".

Desenvolvimento de terraços anti-erosão na Etiópia


As regiões montanhosas do sul da Etiópia, altamente expostas à erosão, possuem uma das maiores densidades de população rural de toda a África. Seus habitantes dependem muito da agricultura, da pecuária e dos recursos hídricos. 

Desde 2020, a Inter Aide e a RCBDIA (ONG parceira na Etiópia), com o apoio da AFD, vêm supervisionando a implementação de medidas de conservação do solo (desenvolvimento de estruturas anti-erosão com vegetação, viveiro de multiplicação de plantas forrageiras, etc.) e treinando os agricultores em técnicas de produção e uso de espécies forrageiras adaptadas a essas estruturas. 

"Graças aos terraços plantados com forragem, que pode ser colhida durante todo o ano, o gado tem acesso a alimentos de melhor qualidade e produz mais leite, e podemos vender nosso excedente de colheita no mercado", explica Yohanes Amao, agricultor e professor. 

Nos últimos quatro anos, o projeto ajudou a instalar quase 2.000 km de estruturas anti-erosão com vegetação, protegendo 2.500 hectares de terras agrícolas. No total, o projeto trará benefícios para 40.000 famílias.

Restabelecimento de uma produção local suficiente no Camboja


Apesar do fluxo de turistas, os pequenos agricultores cambojanos de Siem Reap enfrentam dificuldades para vender seus produtos no mercado de alimentos frescos. A produção local é sazonal, com pouca diversificação, e está dispersa em uma infinidade de pequenas fazendas familiares, sujeitas a uma forte pressão sobre a terra. Para ajudar essas fazendas familiares a reconquistar seu lugar no mercado, o projeto Iada está se concentrando na intensificação agroecológica, na diversificação de culturas e na comercialização de produtos: um total de 1.970 fazendas recebeu apoio em sua transição agroecológica, com a produção sendo promovida por meio da organização Green Farmers.