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Dilúvio alpino de Châteauneuf-du-Pape
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publica nesta segunda-feira, 9 de agosto, a primeira parte de seu sexto relatório sobre os conhecimentos científicos dos sistemas climáticos e das mudanças climáticas. Em 2030 na França, segundo Météo France, o mercúrio poderia exceder localmente 50 °C. Neste contexto, limitar o aquecimento a 1,5 °C, conforme preconiza o IPCC, exige mudanças profundas. Análise com Marie-Noëlle Woillez, doutora em modelagem climática e chefe de programas de pesquisa sobre os impactos das mudanças climáticas na Agence Française de Développement (AFD).
Os recordes de calor se seguem e se acentuam. Em junho passado, na Colúmbia Britânica, Canadá, o termômetro estabeleceu um novo recorde de temperatura de 49,5 °C. O que podemos esperar a curto e médio prazo?

Marie-Noëlle WoillezMarie-Noëlle Woillez: O aquecimento global é acompanhado por um aumento na freqüência e intensidade das ondas de calor ao redor do mundo. Este é um fenômeno que não só tem sido claramente observado nas últimas décadas, mas também predito de longa data pelos modelos climáticos.

Lembrem-se do recorde de calor de 45,9 °C alcançado no departamento do Gard, em junho de 2019. Dependendo da magnitude do aquecimento futuro, que dependerá das emissões de gases de efeito estufa, as temperaturas observadas durante os períodos quentes de verão hoje considerados excepcionais poderão tornar-se a norma nas próximas décadas.

A este respeito, é preciso lembrar que as regiões tropicais estão particularmente expostas. De fato, embora seus habitantes estejam mais acostumados às altas temperaturas do que nós, existem limites fisiológicos à temperatura que um ser humano pode suportar. Por exemplo, regiões como o sudeste asiático poderão ser confrontadas a condições de calor perigosas para a saúde durante vários meses por ano, já em meados do século.


 Ler também: a primeira parte do sexto relatório do IPCC, publicado em 9 de agosto de 2021


Em que medida é possível atingir o objetivo de limitar o aumento das temperaturas a +1,5 °C?

M-N. W.: O aumento da temperatura média global no período de 2011-2020 é estimado em cerca de 1,09 °C em relação ao final do século XIX. Os últimos cinco anos (2016-2020) foram o qüinqüênio mais quente já registrado desde pelo menos 1850.

No ritmo de aquecimento atual, o limiar de 1,5 °C poderia ser excedido antes de 2050, talvez já na década de 2030. Manter-se abaixo do limiar de 1,5 °C exigiria uma redução das emissões de gases de efeito estufa de 40 a 50% desde 2030, atingir a neutralidade de carbono em 2050 e retirar CO2 da atmosfera na segunda metade do século...

Entretanto, as emissões continuam a aumentar - independentemente da redução da pandemia de Covid-19, que é provavelmente temporária. Em outras palavras, ainda é teoricamente possível limitar o aumento de temperatura a 1,5 °C, mas a mudança socioeconômica que isto implica é tal que é altamente duvidoso que se possa realmente ser implementada com rapidez suficiente.

Contudo, como muitos cientistas têm apontado, cada meio grau conta. Embora o objetivo de 1,5 °C pareça pouco realista, isso não significa que seja “tarde demais” e que seja inútil tentar reduzir drasticamente as nossas emissões: um aquecimento de 2 °C será sempre menos prejudicial do que um aquecimento de 2,5 °C ou mais!  

Que alavancas devem ser acionadas para atingir o objetivo?

M-N. W.: O relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sobre os impactos do aquecimento global de 1,5 °C, publicado em 2018, destacou a necessidade de mudanças significativas e rápidas em todas as áreas e setores (energia, uso da terra, uso do solo, planejamento urbano, infraestrutura, indústria, etc.), ao mesmo tempo em que apontava a escala das dificuldades para implementá-las.

Se compararmos com as mudanças ocorridas no passado em setores específicos, o ritmo de transição necessário não é impreterivelmente inédito em si. No entanto, a magnitude da transformação socioeconômica necessária é sem nenhum análogo histórico conhecido. As dificuldades também se devem aos contextos político, econômico e institucional e, às vezes, aos compromissos a encontrar diante de determinados objetivos de desenvolvimento sustentável.

Nenhuma solução única e universal permitirá responder aos objetivos. A limitação das emissões implica a utilização de uma vasta escala de medidas de mitigação, cuja escolha depende da evolução da demanda de energia e de recursos, da velocidade de descarbonização de nossas atividades e da hipótese de recurso ou não à captura e seqüestro de carbono.

Esta última hipótese é, aliás, muito controversa, pois sua viabilidade à escala requerida não está provada. Em todo o caso, será indispensável uma descarbonização maciça do setor energético, mas a gestão da demanda - ou seja, uma diminuição do consumo geral de energia - seria sem dúvida uma alavanca incontornável, a fim de evitar depender de tecnologias que ainda não foram inventadas.

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