Guiana Francesa: uma água de nascente... Finalmente potável!

Guyane, eau, robinet, Phil La Bonté
Guyane française
Guiana francesa
uma água de nascente...
finalmente potável
1000
litros de água tratados por hora
3,22
preço do m3 de água, como em Caiena
165
habitantes e 32 domicílios beneficiados
Na aldeia indígena de Favard, no município de Roura na Guiana Francesa, a instalação de uma unidade de tratamento de água permite fornecer água potável para os habitantes o ano todo, em quantidade suficiente para garantir a higiene e o conforto para mais de 30 famílias e desenvolver uma oferta de ecoturismo em benefício de todos.

Há 40 anos a comunidade indígena Palikur está instalada nas margens do Rio Oyack, na aldeia de Favard, município de Roura, na Guiana Francesa. A cerca de 30 km da capital Caiena, a vida da aldeia é ritmada pelas idas e vindas das canoas. São necessários vinte minutos para os habitantes irem até Roura e a rodovia, pois a aldeia é ligada à sede do município por uma longa estrada de chão muitas vezes impraticável. 

Até recentemente, o abastecimento em água também era caótico. Uma nascente localizada a menos de dois quilômetros da aldeia permitiu alimentar a população durante muito tempo. Mas a água, não tratada, causava problemas sanitários recorrentes, principalmente durante as chuvas, quando a nascente ficava lamacenta e infestada por micróbios... Em 2002, o falecimento de um recém-nascido levou os responsáveis da aldeia a pedir água potável para o consórcio intermunicipal (CACL). 

Graças a um financiamento de 200.000 euros concedido pela AFD, a CACL financia o saneamento e a padronização da produção de água potável na fonte de Favard. A pequena unidade de tratamento, do tamanho de um contêiner, foi inaugurada em 2016 para tratar a água da nascente antes de distribui-la nas casas da aldeia. 

Guyane, rio, Phil La Bonté
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Para Franky, “uma pequeña instalação fantástica!”
Franky Joan, 27 anos, é neto do chefe da aldeia e vive em Favard desde que nasceu. Em 2015, foi contratado pela companhia guianesa de águas (SGDE) para zelar pelo bom funcionamento da estação de tratamento.

“Estou aqui todos os dias, pronto para agir se tiver um problema ou uma peça a substituir. Fui capacitado durante dois meses e sou polivalente: posso consertar elementos ou comunicar os problemas para a SGDE. Todos os dias, devo observar o pH, injetar a alumina, verificar a turbidez da água, a taxa de cloro... É um trabalho de todos os dias, e todas as semanas devo reabastecer a estação com reagentes (cloro, alumina...).

A instalação é pequena, mas é fantástica! Ela mudou a vida de todas as pessoas da aldeia, todo mundo queria uma ligação! A AFD e a CACL pagaram tudo, nós só temos que arcar com o relógio e as contas. Aliás, somos tratados como todos os outros usuários da Guiana, já que o preço do metro cúbico é o mesmo em todo o departamento.

Cada família foi conscientizada para o consumo de água. O fato da água ser paga obrigou as pessoas a gastar menos e utilizar a torneira apenas quando necessário. Aliás, nem todas as casas têm chuveiro. A outra vantagem é que as contas são um comprovante de domicílio. Era um grande problema antes para obter uma linha de telefone ou receber as ajudas sociais.”
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Jean e a água potável que “muda a vida da comunidade”
Jean Lucas é o presidente da associação Walyku, que reúne todos os moradores da aldeia. Muito envolvido na vida da sua comunidade, ele cuida, todas as manhãs, de levar os cinquenta alunos de Favard até a sede do município de Roura, onde tomam o ônibus para irem até as suas escolas.

“Desde a inauguração da instalação de tratamento, houve uma clara melhora do dia-a-dia dos moradores, Não precisa mais ir até o rio para lavar a louça ou tomar banho, não precisa mais comprar litros de água mineral para beber ou cozinhar, não precisa mais filtrar a água durante as chuvas quando ela fica lamacenta... é um verdadeiro progresso para a comunidade e a vida na aldeia.

A CACL e a SGDE tiveram que fazer obras importantes, cavar uma vala para instalar a canalização entre a nascente, a estação de tratamento e a aldeia. Depois instalaram um relógio em cada casa, onde todos agora podem utilizar a sua torneira sem ter que se preocupar com a qualidade da água.

Mesmo que a nossa aldeia não seja muito afetada pelo garimpo, que ocorre em Cacao, mais longe na floresta, no rio tem mercúrio, que pode ter consequências sobre as mulheres grávidas e as crianças menores. Ter água potável diminui o risco de ingerir mercúrio. Infelizmente, ainda tem nos peixes que pescamos, mas todas as espécies não são contaminadas do mesmo tanto, e sabemos separá-los para limitar os impactos.”
Guiana, água, Patricia, Phil La Bonté
Patricia: “ter um hidrômetro, é ter um domicílio”
Patricia Rosemon, 20 anos, dona de casa com dois filhos, mora em Favard desde sempre. Ela vivenciou as diversas etapas do abastecimento em água da aldeia.

Quando eu era criança, lembro que pessoas nos traziam água engarrafada para que possamos beber água potável. Cada casa tinha uma torneira e era ligada à rede alimentada pela nascente, mas a água não era potável. Durante a época das chuvas, ela virava vermelha, tinha gosto de barro, e deixava a gente doente.
Como mãe, é importante ter água potável para os meus filhos, sobretudo para a saúde deles. Utilizo a água para preparar comida, lavar a louça, a higiene... Mais sem excesso, porque temos que pagar por ela. Isso tornou a gente mais atenta. Por exemplo, eu continuo tomando banho no rio de manhã, por hábito mas também para economizar água.

A vantagem, é que com as contas de água, eu tenho um comprovante de domicílio e posso cuidar dos meus processos administrativos. E como muita gente da aldeia não tem trabalho, a água permitiu organizar um modelo de ecoturismo que dá um pouco de dinheiro aos moradores e faz descobrir a nossa cultura e os nossos conhecimentos aos visitantes.

É preciso cuidar ainda da evacuação das águas servidas. A aldeia não tem nenhum equipamento para isso, e seria ótimo a gente poder ter sanitários com uma descarga! Por enquanto, está complicado, e algumas famílias apenas puderam construir uma fossa séptica em casa.”
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Uma estação única na Guiana

A estação de água potável da aldeia Favard é uma instalação única na Guiana, pois todo o sistema de máquinas é contido num contêiner, instalado abaixo da captação de água realizada pelos habitantes quando da sua chegada, em 1973. O contêiner foi inteiramente equipado na França continental antes de ser colocado a umas centenas de metros da aldeia. Dentro dele, encontra-se exatamente o mesmo sistema que em uma unidade clássica. Esse tipo de equipamento integrado é bastante utilizado na África ou em situações emergenciais, como nos campos de refugiados. O modelo poderia ser reproduzido em outros lugares da Guiana.

Captada em uma pequena nascente, a água é levada até a estação para ser tratada. Ela passa por três grandes filtros: os dois primeiros, de areia e carvão, para eliminar as partículas em suspensão, e o filtro de remineralização (a água da Guiana é muito pobre em minerais). A água também passa por um tanque de cloro, que mata as bactérias, e por um tanque de floculante que acelera a decantação. A vazão e o pH são monitorados o tempo todo. Na frente do contêiner, um reservatório de estocagem de 6 m3 é ligado à canalização de 690 metros que leva a água até a aldeia. 

Guiana, água, eco-tourisme, Phil La Bonté
Ecoturismo para todos
Há cerca de quatro anos, a comunidade indígena de Favard, hoje chamada “Wayam” (tartaruga, na língua palikur), deslanchou um projeto de ecoturismo cultural. As associações Walyku (dos moradores) e Peupl’en harmonie lançaram as bases de um novo modelo turístico para a Guiana, inspirado nos exemplos da Costa Rica e do Peru: fazer descobrir a cultura, as tradições e os conhecimentos indígenas – palikur, no caso – envolvendo toda a comunidade.

Dessa forma, em 2015, 200 turistas vindos da Guiana, da Europa ou de outro lugares (América do Sul, China etc.) puderam, durante um dia, dividir os costumes dos Indígenas, aprender a trançar, gravar em cabaças ou preparar comidas tradicionais. Eles eram mais de 800 em 2017 e o número de reservas é cada vez mais expressivo. O projeto já interessa outras aldeias indígenas da Guiana.

O projeto apresenta uma dupla vantagem para a comunidade: por um lado, ele permite redistribuir os lucros da atividade a todos os participantes, e por outro, promove o renascimento da cultura ancestral e das tradições que tendiam a esmaecer com o passar das gerações...

Mais uma vez, a adução de água potável da estação de tratamento “é uma excelente coisa”, explica Jean, o presidente da associação Walyku. “Podemos receber as pessoas e proporcionar água potável, isso facilita muito o desenvolvimento da nossa atividade!”
Os outros projetos para Favard


Outro reservatório de 15 m3 está sendo estudado para Favard. O consórcio intermunicipal e a companhia guianesa de águas realizaram estudos de solo para poder construir as fundações dessa futura caixa d’agua. Por enquanto, nenhuma data foi fixada e o reservatório atual é suficiente para o consumo diário da aldeia. Mas o projeto permitiria ter água por dois dias seguidos, mesmo em caso de pane na estação.


Os próximos projetos para a aldeia são a energia e a evacuação das águas servidas. Atualmente, algumas pessoas possuem painéis solares ou geradores que permitem alimentar as geladeiras ou ler à luz de lâmpadas. Mas os moradores gostariam de ter uma energia mais estável, mais barata, que permita o acesso de todos. Quanto à coleta das águas servidas – e dos resíduos sólidos – estudos estão em andamento. 

Por fim, a aldeia gostaria de conquistar a sua autonomia alimentar. Nesse sentido, vários projetos estão sendo analisados, tais como a aquicultura, a criação de ovinos, ou a formação de pequenas roças agrícolas.​

Guiana, Bonte
A aldeia de Favard - © Phil La Bonté / AFD